Peripatética

Essa foi uma semana super peripatética, andando pela cidade com a turma da disciplina optativa para pensar os lugares como fonte histórica.

O azul do céu de outono de Curitiba sobre nossas cabeças, as calçadas cheias de memórias sob nossos pés, atravessamos a região da Praça Santos Andrade, suas estátuas e seus monumentais prédios do Teatro Guaira e da UFPR; passeamos pelo Passeio Público e terminamos no Colégio Estadual do Paraná. História ao vivo, a cores, com cheiro, temperatura…

Na ponte-que-balança no Passeio Público conhecendo o primeiro Parque público de Curitiba.
Com a Professora Mara, do Centro de Memória e Museu do Co9légio Estadual do Paraná.

Estive também com uma turma de sexto ano falando sobre História da Infância e lembrei o quanto é bom estar com a quinta série <3. Ganhei desenho, muitas perguntas e muito engajamento na proposta.

Além disso, recebi o convite para me apresentar no I Seminário de Práticas Pedagógicas no Ensino Superior, organizado pela PROGRAP-UFPR. Apresentei minha forma de dar aula para outros professores e professoras da minha universidade, conheci estratégias super bacanas de colegas e foi um momento muito legal.

Minha apresentação no evento. Eu tava super animada.

Não sei se é por ter muita energia, ou por nunca ter deixado de pisar o chão da educação básica, mas eu gosto de “inventar moda”. E o magistério superior em uma universidade federal não mudou isso.

Depois de alguns anos na universidade, tendo a impressão de condescendência e pouca credibilidade para a profundidade que as manualidades podem trazer às aulas, percebo que meu jeito de ensinar ganhou mais respeito.

Lembro de ter ficado muito chateada em 2013, quando uma proposta de oficina aos moldes das beguinas, como aprendi com a Nina Veiga — cruzando bordado e leitura teórica — foi recusada em um evento acadêmico do curso. Eu era professora substituta, ainda não havia tantos projetos com bordado circulando no meio acadêmico, e a discussão de inovação no ensino já se encaminhava quase exclusivamente para as tecnologias digitais.

Mas insisti. Sabia o valor dessas ideias, tinha uma base teórica sólida e uma experiência muito estreita com artesãs.

Então, na minha sala de aula sempre rolou — e ainda rolam — abordagens que convidam à EXPERIÊNCIA, como o Jorge Larrosa tão lindamente destrinchou em seu “Notas sobre a Experiência e o saber da Experiência”, texto que, aliás, abriu minhas disciplinas por anos.

Esse evento foi uma chance de organizar os registros dessa caminhada com as turmas. Busquei imagens de aulas, oficinas, cursos. Deu uma nostalgia boa e uma alegria íntima rever letras, rostos, artes de tantas alunas e alunos que passaram pela minha vida.

Deixei de fora tudo que envolvia bonecas e montagem de portfólios (isso dá muito pano pra manga). Decidi focar em outras quatro frentes que tenho curtido desenvolver:
fichamentos em estilos múltiplos, registros analógicos em cadernos e na lousa, bordado sobre fotografia na análise de textos e as recentes oficinas de escrita cuneiforme sobre argila.

Sobre os fichamentos: se o objetivo é fichar para estudar textos, o melhor é que cada um descubra seu próprio jeito. Para ajudar, costumo propor oficinas com diferentes formas de entrada: fichamento tradicional, diálogo com imagens, rabiscos, bordado, fanzines, mapas mentais, método Cornell… tem pra quase todo mundo.

Nesse movimento, muitas vezes montávamos grandes murais que ficavam na sala o semestre todo — como referência viva, sendo mexidos e transformados ao longo das aulas.

Desde o ano passado venho aperfeiçoando um ateliê na disciplina de História da Educação I, que chamei de “Ateliê Casa das Placas”. O engajamento das turmas é uma delícia: quem não gosta de mexer com argila?

O caderno é meu xodó. Escrevo e pesquiso bastante sobre ele, e sou uma Heavy user, como já mostrei aqui. Quem estuda comigo acaba também desenvolvendo seus próprios cadernos, até porque a prova é com consulta de suas notas manuais. Quando fui supervisora de estágio, levamos isso tão a sério que chegamos a produzir artesanalmente os cadernos enquanto estudávamos seu uso em pesquisas etnográficas.

O quadro verde — o bom e velho quadro de giz, símbolo de atraso pedagógico para alguns — segue sendo, para mim, uma baita tecnologia. Tenho prazer estético em terminar uma aula e olhar o conhecimento partilhado, mixado, registrado “à quente”, no diálogo entre ensinar e aprender.

Para terminar, sabe aquela oficina de bordado com leituras de Paulo Freire que foi recusada? Apresentei novamente em outro momento — e acho que foi um dos episódios mais bonitos da minha docência. Com a parceria da minha amigona Jordana Botelho e com o luxo de ter uma fotógrafa sensacional nos registros: Giorgia Prates, que hoje é uma vereadora das excelentes e, na época, era minha aluna.

O que posso dizer sobre tudo isso?

Engajamento ampliado das pessoas estudantes

Implicação do corpo, das mãos e do pensamento nos processos de aprendizagem — presentificação

Relação mais sensível e situada com os textos e com a literatura

Maior exposição de si — abertura ao risco, à experimentação, ao compartilhamento e aos outros

Produção de sentidos por vias diversas

Percepção recorrente de leveza, alegria e saúde associadas ao estudo

Eu não tenho nenhuma dúvida de que, em tempos de invasão tão tóxica de telas e IAs, a volta dos analógicos pode ser celebrada. Então, se te interessa uma prática mais viva, te recomendo estas leituras:

BONDIA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência, de Jorge Larrosa Bondía

CORDEIRO, Andréa Bezerra. Do Primeiro rabisco até o Be-a-bá: os cadernos na escola, na docência e na vida In: Nenhum(a) a Menos na Escola: práticas educativas no cotidiano escolar- antes, durante e pós-pandemia, ed.01. Curitiba: CRV, 2021, v.02, p. 31 – 48.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. O [velho e bom] caderno de campo. Sexta-Feira, São Paulo, n. 1, p. 8-11, 1997.

VEIGA, Nina. Nina Veiga Atelier De Educação. https://www.ninaveiga.com.br/

SAX, David. A vingança dos analógicos: Por que os objetos de verdade ainda são importantes. Tradução de Alexandre Matias. Anfiteatro; 1ª edição. Rio de Janeiro. 2017. RHONE, Patric. Why Analog?. Disponível em http://www.thecramped.com/why-analog/.

TISO, Mariana. Caderno Narrativa (site). https://www.instagram.com/cadernonarrativa/

ZABALZA, Miguel: Diários de aula: um instrumento de pesquisa e desenvolvimento profissional.[recurso eletrônico]. Tradução Ernani Rosa. Porto Alegre: Artmed, 2007.


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